domingo, 2 de março de 2008

Cavalheirismo: discriminação ou civismo?

É o cavalheirismo símbolo de algum machismo? Estará ele em desuso? Será sinal de falta de educação não atender aos seus preceitos?


Em bom rigor, alguns exemplos de cavalheirismo não têm origens muito consentâneas com a igualdade de géneros. Na verdade, segundo li em sítios diversos, o cuidado de deixar as senhoras passar em primeiro lugar surgiu na Idade Média, num hábito segundo o qual os homens as deixavam entrar primeiro noutra divisão para que, caso lá estivesse um inimigo, fossem elas as atacadas em primeiro lugar e os homens já se pudessem prevenir. Enfim, é uma história, e vale o que vale…

Acima de tudo, parece-me que o cavalheirismo se torna, analogamente ao protocolo ou às regras de etiqueta, numa forma de obviar e de universalizar comportamentos em certas situações. Isto é, à saída do elevador, p.e., estando um rapaz, um homem e uma senhora, sabemos de antemão que a senhora sairá primeiro, seguida do homem e depois do rapaz. Sabemo-lo porque determinadas “regras” já nos foram incutidas, regras essas que tornam mais práticas as nossas acções no dia-a-dia, evitando que, p.e., naquele caso, as pessoas ficassem eternamente a deliberar sobre a ordem de saída do elevador (se bem que, actualmente, isso vai acabando por acontecer por as pessoas irem flexibilizando estes hábitos).

O cavalheirismo (e entendo-o numa perspectiva de homem gentil, homem de bem) diz respeito não só às acções perante as senhoras. Educado, um gentleman cede a passagem a um outro homem ao atravessar uma porta, fala delicadamente (e não dando provas de “desasseio mental” – uma expressão que descobri e da qual fiquei fã), levanta-se para cumprimentar as pessoas (independentemente do sexo, naturalmente) e presta particular atenção a pessoas mais velhas ou mais frágeis.

O cavalheirismo é, antes de mais, uma convenção. Porque se convencionou desta forma, a sociedade foi enraizando estes costumes, que, actualmente, constituem regras de boa educação mas que vão vendo um abrandamento do seu cumprimento.
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Não é, para mim, uma formalidade ridícula. O cavalheirismo corresponde não só regras de boa educação, como também é fruto de toda uma tradição que constitui o nosso património enquanto seres humanos e que, como tal, deverá ser preservado.

6 comentários:

Gonçalo Carvalho disse...

Finalmente, vou comentar!

De acordo com o meu pequenino livro ETIQUETA E BOAS MANEIRAS NO DIA-A-DIA, se o homem ou a pessoa mais nova estiver mais perto da porta do elevador, poderá sair primeiro do que senhoras ou mais velhos.

De resto, este livrinho, que também insiste no facto de estas regras nos facilitarem a vida, é muito simpático porque ajuda a clarificar aspectos dúbios ou simplesmente a lançar as bases para aqueles que, como eu, são um zero... à esquerda. ;)

ASL disse...

Caro Gonçalo,

Mais do que aludir ao aspecto de "etiqueta" que uma dada componente do cavalheirismo comporta, queria sublinhar sobretudo os actos gentis, a cordialidade natural e a elegante e subtil boa educação pelos quais um cavalheiro se pauta. Acções essas que, por muitas vezes não existir um critério racional e apenas serem baseadas numa tradição, são por vezes menorizadas e ridicularizadas; o que, na minha opinião, constitui uma falta de educação e não apenas um mero capricho.

Will you be back? :P

Gonçalo Carvalho disse...

Eu passo por cá regularmente, mas só tenho tenções de comentar se achar que o que tenha para dizer é pertinente. Não é por falta de leitura dos posts. Parece-me razoável, isn't it? :)

Anónimo disse...

concordo com a ideia de agora o cavalheirismo estar mais em desuso, mas nao me parece que seja assim tão negativo... acho que muitas das acções dos "cavalheiros" devem ser enquadradas na altura em que foram practicadas

Anónimo disse...

nota: digo isto tendo em conta que a "boa educação" não se resume ao cavalheirismo...

ASL disse...

Caro Anónimo,

Percebo perfeitamente o seu ponto, mas para de achar que a falta de certos actos de cavalheirismo pode ser tomada como sendo falta de educação, parece-me que está também em causa – como de resto referi no post – uma questão de tradição.

Se me é permitida a comparação, as noivas vestem-se branco como símbolo da pureza, da virgindade, que era a “condição” com que as mulheres iam (ou, genericamente, iam) quando se casavam, até há umas décadas atrás e na sequência de alguns séculos assim. Hoje, todos sabemos que a situação é muitíssimo diferente e não é por isso que defendo que as noivas dever-se-ão vestir de outras cores. Muito pelo contrário! Aquilo que nas duas situações me parece que está em causa é a prática usual e recorrente que se foi enraizando na sociedade.