quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os exames e as florzinhas de estufa

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Começou ontem a primeira fase dos exames nacionais. Como todos os anos, muito se escreveu e opinou sobre a pertinência de se fazer exames nacionais.

Um dos argumentos muito utilizados por quem discorda da existência dos exames é o desrespeito pelo trabalho desenvolvido pelo alunos ao longo de um ano lectivo inteiro (ou do ensino secundário), uma vez que é injusto destinar 30% da nota de candidatura de uma pessoa a umas duas horas (e meia, agora).

Permito-me transpôr o célebre pensamento de Sir Winston Churchill que definia o regime democrático não como perfeito mas como o melhor entre os existentes: entre as várias opções para uma pessoa se candidatar ao ensino superior, parece-me que a vigente não é perfeita mas é a melhor. Não é perfeita exclusivamente porque uma pessoa pode ter um "azar" e baixar drasticamente a sua média.

Mas é um sistema que permite, ao contrário daquilo que é muito defendido, ajustar algumas desigualdades em termos de exigência de ensino nas várias escolas. Vejamos: e se não houvesse exames?

Não havendo exames, qual seria o mote primordial das escolas? A exigência (que pode conduzir a muito bons resultados nos exames) ou a falta dela (por forma a dar notas o mais altas possível para que os seus alunos tivessem maiores probabilidades de entrar no ensino superior)? Sem exames, muitos dos colégios tornar-se-iam naquilo que é a maioria das universidades privadas: reduzida exigência e "notas fáceis" por forma a lançar para o mercado de trabalho - no caso das universidades - ou para o ensino superior - no caso dos colégio - pessoas com médias o mais altas possível.

Se existe um concurso nacional de acesso ao ensino superior, então deverá haver uma prova universal e homogénea para todos os candidatos a fim de garantir alguma igualdade (apesar de corresponder a apenas 30%) nas candidaturas.

Outro argumento utilizado por quem se opõe aos exames é o do stress e da pressão causados nos alunos. Pois devo então dizer que mesmo que não houvesse o factor de ajustamento das desigualdades da exigência de ensino nas várias escolas, já valeria a pena haver exames só por causa do dito stress e da tal pressão!

Sim! Seria absolutamente inaceitável uma pessoa estar a entrar numa faculdade e nunca ter feito um exame, e a três anos (na maioria dos casos) de entrar no mercado de trabalho e nunca ter sentido a menor sensação de stress, de exigência, de concorrência, de dar o máximo! Irritam-me esta sociedade e esta mentalidade de criar florzinhas de estufa, criancinhas que vivem numa redoma de vidro e que não podem ser apoquentadas com demasiado trabalho, com demasiada matéria para estudar; caso contrário lá virão os do costume alertar para os perigos do stress, dos nervos, das depressões, das poucas horas de sono, da instabilidade emocional, e tudo aquilo que esses senhores resolvem inventar... e que naturalmente recolhe apoios!

Sou, por isso, 100% favorável à existência de exames para a conclusão de cada ciclo de ensino - básico ou secundário -, isto é, nos 4º, 6º, 9º e 12º anos. Naturalmente que com graus diferentes de exigência, mas fortemente convicto de que a experiência na realização de exames o mais cedo possível criaria maior exigência e uma maior filtragem dos alunos realmente merecedores de aprovação para o ciclo seguinte seria feita.
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10 comentários:

Nônô disse...

Concordo totalmente contigo mas este ano prefiro maldizê-los todos os dias só porque tenho de os fazer. Enfim, faz parte mas quando chegam as férias é bom sentir que valeu a pena!

Daniela disse...

hoje em dia, os psicólogos e pedoterapeutas, analisam as crianças como pequenos pedaços de vidro. não se pode tirar o telemóvel porque ficam deprimidas, não se lhes pode gritar porque entram em depressão, não podem fazer exames porque ficam deprimidas e stressadas e com maus pensamentos sobre si mesmas. de certa forma devem querer criar seres humanos totalmente incapazes e protegidos que quando ficam sozinhos no mundo não sabem para onde se virar. talvez para a caixa de anti-depressivos mais próxima.

Tiago disse...

Concordo consigo António, no entanto não se esqueça que: entre os privados estão os melhores e os piores(Planalto e Católica, ou Crisfal e Independente, por exemplo, respectivamente)...e em relação às escolas públicas não é garantido que todas tenham conseguido acompanhar os seus alunos com tutorias ou línguas estrangeiras obrigatórias desde a infantil. Porém tem razão, dada a massificação geral do ensino tem de haver uma "triagem" e só essa selecção fará com que tenhamos os melhores nos lugares de maior responsabilidade e com a mais elevada formação(superior). Do ponto de vista humano, é justo que se exija e seleccione os melhores entre os melhores. Do ponto de vista social, nem todos terão as mesmas bases que facilitarão essa passagem ao nível seguinte...mas é como diria Sir Churchill, é a menos má avaliação.
Essa das florzinhas está genial, ainda que haja de facto uma certa pressão durante o 12º(que ainda não esqueci, por isso agora brinco com os amigos que ainda lá estão)mas muito suportável e até desejável para conter nervosismos futuros e testar conhecimentos. Estranho é tentar-se limpar todas as provas e exigências -das poucas que restam- levadas a cabo para melhor a preparação dos Portugueses menos exigentes.
Sim, porque a educação, essa, ao contrário do que se diz, vem de casa e mesmo que se chegue ao ensino superior podemos e teremos os Dr.'s mais formados e mal-educados do mundo. E com desconhecimento de rigor, honestidade, amor à Pátria, humildade e incapacidade de organização.
Estas são as chaves do insucesso e as razões da regressão actual, todas elas já batidas(prestes a comemorar o centenário, embora com períodos de estabilidade pelo meio) e conhecidas, de que todos se queixam mas teimam em manter.
O meu País, esta grande Nação, ou adormeceu ou já não é de todo o que deu mundos ao Mundo Medieval.

Abraço,
Tiago

ASL disse...

Cara Nônô,

Compreendo perfeitamente! É a mesma história dos impostos: pode, em certas alturas, perceber-se o aumento dos impostos, mas, na verdade, não é algo agradável! :P


Cara Daniela,

É exactamente essa a linha orientadora do meu discurso! Mas sabes que, na verdade, esta é não só uma questão que muito me irrita, mas sobretudo que me preocupa. O Ensino é das áreas que maior projecção no futuro de um País tem, o que significa que as políticas educativas neste momento desenham as mentalidades e as formas de estar na vida e no mercado de trabalho dos adultos das próximas décadas! Isto é profundamente assustador... E é sobretudo assustador pensar que agir contra este estado de coisas significa, inevitavelmente, perder votos!

ASL disse...

Tiago,

Ao falar das universidades privadas, tive o cuidado de me referir à sua maioria. Reconheço, como se referiu, a Católica como uma universidade de qualidade, mas a verdade é que grande parte das universidades privadas funcionam nos moldes que expus no texto. Quanto aos colégios, no regime actual, não me parece que seja exactamente como funciona com as universidades (houve, de resto, e como é habitual, uma interessante discussão sobre este assunto no blogue da Daniela - aquihadiscussao.blogspot.com).

Quanto à educação, a tal que vem de casa, devo fazer um pequeno desabafo: sempre me fez alguma confusão a "necessidade" que os primeiros-ministros têm em mudar o nome dos ministérios quando tomam posse. No entanto, houve um ministério que nunca mudou: o da Educação (excepto para acrescentar "e da Cultura" ou, eventualmente, "e da Ciência"). Ora, pode parecer um preciosismo, mas por certo que mudaria o nome para "ministério da Instrução". Bem sei que era a designação no tempo do Estado Novo, pelo que facilmente seria apelidado de fascista (o que já daria outra discussão), mas a verdade é que o nome me parece bem mais adequado. É um lugar comum, actualmente, entender-se a escola como local onde as pessoas são educadas, quando na verdade é o local onde são instruídas!

Quanto à associação da falta de humildade e de exigência e da incapacidade de organização ao regime República é que já tenho algumas dúvidas. Sem dúvida que hoje em dia muito medo há em se dizer "PÁTRIA" ou "NAÇÃO" - tema que pretendo aliás desenvolver num próximo post -, mas parece-me que isso é apenas fruto de um complexo que os Portugueses. O mesmo complexo, diria, que teriam se houvesse o tal ministério da Instrução ou ministério do Interior (que, de resto, é a designação na maioria dos países da UE e em Portugal até ao 25 de Abril).

Penso que foi essencial o dr. Manuel Alegre - homem de esquerda - ter alertado para esta temática na campanha para as presidenciais de há dois anos, mas julgo que não seria por vivermos em monarquia que viveríamos melhor. Mesmo que assim fosse, por uma questão de princípio, optaria pela República, dado o carácter mais democrático que lhe vejo. De resto, tenho uma série de dúvidas em relação ao fundamento do regime monárquico, pelo que abordarei este assunto (não que me vá fazer mudar de posição!).

Um abraço


Nota: Respondo ao Tiago separadamente para que não haja um "mega" comentário com todas as minhas respostas.

Tiago disse...

Sinceramente concordo fortemente consigo, Ant�nio. Fui ler a tal discuss�o ao tal blog e gostei das argumenta�es(percebo algumas e respeito todas) parecendo-me a sua a mais conhecedora da realidade das escolas privadas(acerca das universidades temos a mesma no�o, bem patente no reconhecimento da Cat�lica e perpep�o em rela�o �s demais).

Essa dos Minist�rios est� genial, muito correcta(porque rigorosa) e ideologicamente n�o me ofende minimamente. Mas estou de acordo consigo quanto aos efeitos que isso teria na sociedade actual...gostei da sua coragem ao abordar este assunto(nem sequer ousei aprofund�-lo, e temo muito pouco a orienta�o pol�tica estabelecida).
Quanto ao Regime Mon�rquico... apanhou-me. Sou Mon�rquico. Deu-me prazer escrever com aquele sentido, ainda que reconhecendo a sua dificuldade imediata em aceit�-lo. Ainda assim, e agora menos por brincadeira e mais por rigor, pode-se estabelecer de facto um esvair de valores essenciais � sociedade que desde a implanta�o da Rep�blica se verifica(retomados em boa parte durante o Estado Novo, ali�s sob consider�vel influ�ncia mon�rquica). Mas estes s�o assuntos (do meu) de cora�o, adoro mas talvez seja por vezes tendencioso. Por�m pe�o-lhe que n�o ignore alguns factos que se podem comprovar e s�o relevantes.

O Deputado Manuel Alegre tem o meu reconhecimento por ter finalmente reerguido das cinzas de alguns Portugueses a "P�tria" e, nessa altura e por esse mesmo not�vel acto, colocou-me em d�vida em rela�o ao apoio eleitoral que eventualmente lhe poderia prestar. Sou livre, mas n�o o suficiente para alterar o voto em rela�o ao discurso espec�fico e pessoal de cada pol�tico, e dessa vez pensei seriamente no caso. Ter� pelo menos a minha eterna estima, se � que isso far� a algu�m a menor diferen�a.

Um pedido: n�o se ofenda com opini�es menos cient�ficas ou propositadamente mais sentidas que por vezes eu possa ter. Gosto destes assuntos e penso alguns deles com amizade e portanto trato-os como aos amigos(� mais f�cil analisar colegas).

Abra�o,
Tiago

Tiago disse...

A propósito de tudo e de nada, deixo-lhe isto: "A doutrina separa, o serviço une.", Papa João Paulo II.
No mesmo sentido, a ideologia, ainda menos deve separar, porque é mutável -ainda que intensamente vivida em determinada época. Nem a doutrina, permanente e constante, cuja actualização diz respeito somente à comunicação da mensagem milenar, é suficiente para afastar a Humanidade.
Penso que me compreende(e nem o autor da citação, muito representativo de uma doutrina, deve dificultar a compreensão -e no seu caso parece-me que é facilmente aceite.

P.S.- Trata-se do meu culto e desaparecido(destas andanças) Amigo António V.C. ou nem por isso? Em inteligência, escrita e raciocínio são o mesmo...ou pura semelhança ideológica, doutrinária e nacional.

Tiago

ASL disse...

Tiago,

Peço desculpa, mas não percebi o P.S.... :s

Tiago disse...

Desde que li alguns textos e comentários que fiquei com a sensação de estar em casa. E a pensar que o António, você, seja o meu amigo António V-C. Será? É que ele bem disse que se tinha afastado dos blog's, mas este...e a forma como escreve, as opiniões, etc, é tudo tão típico dele. Pode não ser você(ou pode não se querer identificar), porém sao incrivelmente parecidos!

ASL disse...

Ah, não! Seguindo a lógica das iniciais, não sou António VC, mas sim António SL... A minha única experiência em blogues previamente ao Bazar Diplomático foi em quebra-gelo.blogspot.com!