sábado, 14 de fevereiro de 2009

Os pré-conceitos da sociedade

Escrevia João Pereira Coutinho há uns dias:
"Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe, jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas, a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho."

6 comentários:

Inês Moreira Rato disse...

Lições de piano aos cinco, sei o que isso é!

Tiago disse...

É Mesmo! As crianças nascem nisso. Os miúdos já não se permitem a fazer disparates, são afastados de tal, não têm como fugir do que lhes é imposto...não há tempo nem espaço. Os jovens adultos idem. Assustador! Sejamos livres, "maus exemplos", mas felizes! Força contra a corrente! Abaixo as imposições e limitações da sociedade moderna, republicana e laica! Abaixo o controlo económico e social do Estado e dos pares!
Sejamos Portugueses...e pessoas!

Tiago

P.H.S.S. disse...

Emprego e marido até não me importo de não ter.
Agora... a minha casinha de sonho quem ma tirar, paga-mas!

JPC disse...

Blog muito interessante, parabéns, a merecer regresso.

Mas esta citação do JPC deixa-me com uma interrogação. JPC claramente exagera o retrato que faz da sociedade contemporânea. É certo que muita gente terá esse género de preocupações, mas não penso que sejam obsessões assim tão generalizadas. A maior parte das pessoas que conheço não as têm. Eu próprio tenho dois filhos e nem me passa pela cabeça esse tipo de mentalidade. Também é certo que a vida moderna tem os seus problemas, como todas as vidas de todas as épocas.

Mas a minha questão não é essa. É esta e passa pelo simplismo básico da reflexão citada: se lhe dessem a escolher, caro ASL, em que época gostaria de viver? Há cem ou duzentos anos atrás, ou hoje? Para dificultar a resposta, vamos partir do princípio, estatisticamente aceitável, que o ASL e o JPC não faziam parte do 2 ou 3 por cento da população que nascia em berço de ouro, em altas posições sociais ou no seio de grande fortuna familiar. Como sabemos, a esmagadora maioria das gentes era pobre, quando não miserável, os cuidados de saúde eram mínimos ou inexistentes, não havia serviço nacional de saúde nem segurança social, a mortalidade infantil era assustadora e muito menos existia turismo ou internet.

Vamos então partir desse princípio. Acha mesmo que antigamente é que a vida era "vivida" com o esplendor (presumo que despojado e naturalista) com que JPC proclama ansiar? É certo que os pobres de antigamente (os tais 90 e tal por cento da população) nem sequer sonhavam, não tinham esse direito, mas acha mesmo que esse é um retrato fiel da sociedade actual? Olhe em volta para os seus amigos, todos. Eles são assim? Acha mesmo que esta comparação em forma de raciocínio, esta visão do mundo e da história, é legítima e razoável?

Paz!

ASL disse...

Caro JPC,

Julgo que João Pereira Coutinho, com aquele texto, não estava a dizer que "há uns séculos atrás é que era". Eu pelo menos, ao citá-lo, não estava.

O meu ponto é simplesmente que as coisas simples (e as mais verdadeiras e importantes) da vida vão sendo engolidas por outras que, a meu ver, não merecem a relevância que se lhes é dada. Parece-me que as pessoas idealizam uma coisa e se essa coisa não lhes é dada consoante queriam, é uma grande chatice. As pessoas não sabem ser exigentes; são "picuinhas". Queixam-se demais e agradecem de menos.

Isto para não falar nas escolhas que se tem de fazer. Claro que uma pessoa que ponha a sua carreira profissional à frente da família não pode estar à espera de chegar a certa idade e não estar arrependida por não ter dedicado à família todo o tempo que queria. E isto não me parece ser uma generalização exagerada. É um lugar-comum ouvir-se as pessoas dizerem que não têm (mais) filhos por causa da carreira. É legítima essa opção - cada um é livre de escolher -, mas não deixa de simbolizar uma certa inversão de princípios em relação a há uns tempos. O que não significa, naturalmente, que quisesse viver há uns séculos atrás; apenas que a minha maneira de estar na vida difere da da maioria da população.

Obrigado pela visita :)

J disse...

Compreendo a sua posição, mas a analogia de JPC é clara, mesmo que dissimulada, digamos assim. E a sua maneira de estar na vida, provavelmente não difere assim tanto da da "maioria da população". Obviamente que haverá muita gente com as prioridades mal definidas (achamos nós, os muitos que temos uma maneira de estar na vida similar à sua), mas lá voltamos a mais um tema intemporal e universal. O que acontecia antigamente com a maioria da população, por exemplo, é que os homens, apesar de terem mais filhos (por uma série de razões que podem vir ao caso) quase nunca tinham hipótese de dedicar esse tempo à família, porque estavam também demasiado ocupados nas suas carreiras. Carreiras essas que, ao contrário de hoje, quase nunca saiam da cepa torta. Nascia-se sapateiro e morriasse sapateiro. Sem sonhos.

E ontem como hoje, há que respeitar, naturalmente as opções de vida de cada um, e pensar nas razões dos outros, por muito egoístas que aos nossos olhos possam parecer. a mim, por exemplo, é mais egoista aquele que tem oito filhos e depois não tem tempo nem paciência nem capacidade para os amar, nutrir ou educar. Só para alegrar a estatística e os arautos da chamada "família tradicional"? se não há condições, mais vale, realmente ter só um, ou nenhum. São escolhas que não dizem respeito a mais ninguém. A isso chama-se também planeamento familiar.

Agora, que as pessoas não sabem ser exigentes, que são ingratas ou "picuinhas", pois, muitas se-lo-ão, como sempre foram. Mais uma vez nem todas. E essas são sem dúvida características muito portuguesas, antigas, mas muito nossas. Mais facilmente nos lamentamos do que mudamos o que está mal, é verdade.

Mesmo no aspecto das "coisas simples", apesar de partilhar do que penso ser a sua ideia de "coisas simples", também prefiro não moralizar nem ver sinais de "decadência de valores" por todo o lado. Cada um lá terá a sua pessoal noção de "coisa simples". Para uns é parar para apreciar uma flor ou dar um beijo espontâneo num filho, para outros será uma playstation e para outros ainda um bom jantar num restaurante de sonho na companhia de amigos ou umas férias de sonho na companhia da mulher e dos filhos.

Atenção que não digo que não me incomodem certos comportamentos, claro que me preocupam, porque podem afectar a harmonia social, digamos assim, mas não partilho desse pessimismo.