quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Que prioridades?

Impressiona-me ver o gap que se tem acentuado entre as altas instituições da Igreja (repito: altas instituições da Igreja) e as pessoas.
O mundo vive momentos difíceis e sinto que a imagem que a Igreja passa sobretudo para os não-crentes - uma vez que os católicos, pedras constituintes da própria Igreja, conhecem melhor o trabalho que esta desenvolve no terreno, no dia-a-dia - não é a melhor. Vejo um Papa com prioridades não coincidentes com as do mundo e que não vão ao encontro dos problemas dos homens. O ponto nem é a radicalização das suas posições em certos aspectos, mas sim o reduzido envolvimento nas grandes questões mundiais.
De Bento XVI exigir-se-ia a criação de um movimento que pensasse a actual crise financeira, que pusesse a Igreja a trabalhar em linhas condutoras, como fizeram João XXIII na Mater et Magistra, Paulo VI na Gaudium et Spes e na Populorum Progressio ou João Paulo II em infindáveis intervenções. Da Igreja não se exigem soluções para a crise, mas espera-se não só palavras de esperança no mundo mas também uma noção de acompanhamento da situação e de uma postura pró-activa.
Os princípios de defesa da vida já o mundo conhece. Aquilo que as pessoas precisam de ver é um Papa a visitar as sociedades ocidentais capitalistas em queda, e aí, junto delas, oferecer o seu apoio e o da Igreja; visitar um Médio Oriente que vive em sobressaltos dia após dia; ir a uma Ásia onde a Igreja entra com dificuldade. A Igreja não pode bipolarizar a sua acção no discurso da vida humana e no apoio aos países subdesenvolvidos. Na linha de João Paulo II, penso que deve enquadrar-se na sociedade moderna e virar-se para os problemas que a atingem, como até já fez Paulo VI na carta apostólica Octogesima Adveniens, onde alertava para os problemas sociais gerados pelo progresso científico, para a urbanização, para os media e para o ambiente.
João Paulo II ganhou o respeito que ganhou porque conquistou o mundo ao falar a mesma linguagem, viver os mesmos problemas e trabalhar ao lado dos homens. E é isso que o mundo espera (das altas instituições) da Igreja.

2 comentários:

MM disse...

António,

Isto: http://www.acidigital.com/noticia.php?id=15165, não te ajuda?

E é preciso ter cuidado na publicitação da intervenção social da Igreja: "que não saiba a mão esquerda o que faz a direita" (da ideia de S. Paulo) é difícil num tempo de sicesperanças e solidariedadesfashion...

ASL disse...

Não estou a sugerir que as altas instituições da Igreja se movam ao sabor dos problemas do momento, do imediato. Estou tão-só a dizer que a Igreja não se deve/pode focar exclusivamente nem na defesa da vida humana nem na pobreza em África.

Há outras calamidades que existem e que requerem uma Igreja pró-activa. A Igreja tem tudo e mais alguma coisa que ver com o Ocidente, e portanto também com os graves problemas que hoje enfrenta - e que não são apenas problemas do momento, mas sim problemas estruturais. E o feedback que tenho das pessoas mais afastadas da Igreja é o de a verem como uma instituição da qual se sentem longe (porventura por culpa delas até), pelo que a presença do Papa na Europa ocidental é absolutamente prioritária!

E quando falo da Europa, falo também do Médio Oriente - que me parece dispensar grandes discursos - e da Ásia, onde a liberdade é também muito escassa e onde importa alertar que o fortíssimo crescimento económico registado no sudeste asiático não é justamente distribuído pelos cidadãos daqueles países. Claro que África também padece de muitos males (e estou expectante em relação a esta visita a Angola e aos Camarões), mas importa não só a Igreja estar presente nos locais problemáticos, como também mostrar ao mundo que está lá. E o mundo já conhece a presença da Igreja em África (acusando-a, inclusivé, de ser a culpada pela propagação da SIDA, quando na verdade se nem fosse a Igreja milhões de africanos já teriam sido chacinados quer pela guerra quer pela fome quer pelos regimes); falta agora dar a conhecer a sua presença efectiva, real e preocupada nos outros cantos do mundo, revelando estar atenta aos novos problemas regionais.